Era um dia cinza. Era um dia atípico. Não tinha gota que precipita-se, mas as faces estavam umedecidas. E os olhos por trás dos óculos estavam avermelhados e inchados. Eu não pude vê-los, mas, presumi. Havia crianças, e essas corriam e brincavam, alheias a tragédia que se abaterá sobre os demais. Pobre dessas pessoas que não podiam fazer o mesmo. Umas sentindo obrigação em estar presente, em presta uma ultima visita, mesmo passado ano sem vê-lo em vida. Outros nem mesmo o conhecia. Era mais um amigo de um amigo. Mas, uma figura entre esses emanharado de gente se destacava. Uma senhora de cabelos castanhos e compridos, esguia, de postura impecável, elegante de movimentos ternos. Encontrava-se sozinha, em um canto do recinto, como se por puro egoísmo comtemplasse sua dor só. Foi então que notei, o grande fluxo de desconhecidos que se aproximavam dela e balbuciavam algo e se retirava. Não pude me conter, aproximei no ímpeto de ouvir o que diziam. Aproximei-me. Minhas suspeitas se confirmaram. Aquela bela mulher enterrará seu companheiro, um defunto gélido, outrora lhe fizera companhia, com quem desejou dividir uma vida, sonhos, planos e realizações. Agora, ali, deitado em ima caixa tão fria quanto ele. Foi então que pela primeira vez pude observar seu caminhar suave, ela começou a se aproxima do seu morto e conforme ia chegando próximo a ele, se colocava vulnerável, já tirará o óculos e pude ver quão lindos eram aqueles olhos, mesmo embriagados de lágrimas. Olhos nos quais você se perde. Olhos dos quais você não desejaria ser encontrado. Olhos de ressaca. Olhos de Capitu. Ela chegou ao seu morto, já aparentava não possuir forças em suas pernas. Tremiam diante daquele corpo já sem resquício de vida. Ela o fitav a incansavelmente como se houvesse algo a dizer, algo que por fatalidade não fora dito. Não houve tempo. Ou, talvez por capricho. Não importa, já era tarde demais. Seja lá o que fosse, tive impressão que ela o carregaria em seu intimo até os fins dos tempos. Era notório o quanto a angustia a consumia, diante daquele caixão ela permaneceu. Parecia tão inconsolável. Era a pessoa mais sozinha do mundo. Quem a via cultivando aquela dor pedante não acreditaria que na noite anterior, aquela mesma mulher, sufocará e matará lentamente algo que um dia foi sua razão de existir. Ela, que mais sofria, era a assassina. Transparecia um misto de sentimentos. Exceto remorso. Ela não podia senti-lo. Sentia alivio por o ver longe era maior que a vontade de te-lo por perto. Ela se aproximou dele e ao pé de sua orelha gelada ela sussurrou: “Você sempre tirou mais do que deu. Você sugou minhas energias até a exaustão todos esses dias. Você foi vil, infame, covarde e insensível do inicio ao fim. E hoje, quero enterrar com você toda e qualquer lembrança sua. Mas eu não podia deixar que fosse jogado na valeta sem desabafar, pois mesmo em seus últimos minutos de vida, você foi egoísta. Não podia aguentar alguns minutos a mais até que eu tivesse dito tudo?”. E se virou e saiu.
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